Poeta , Editor, ex-Diretor do INEPAC, Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro, e membro do Conselho Estadual de Tombamento.

sábado, outubro 22

Na promíscua pista. Vai só a nossa falta.

Recusa



[Giorgio de Chirico,  óleo sobre tela.]

Odiamos todos
Os que nós não somos
Por todos os modos.

A eles nos transpomos
Vendo-os pôr-se em nós
Quais neles nos pomos.

Um do outro após
Só enganos avista.
Enredados, sós.

Somos o que dista
E ainda assim assalta.
Na promíscua pista.
Vai só a nossa falta.

sexta-feira, outubro 21

Os crânios de almas preclaras Guardados nas galerias



O LOUCO NA IGREJA
(Fuga sacra)
 
Flores brancas, flores frias,
Cravos, lírios... Flores claras
Das cruzes das sacristias
Que encobrem com graças raras
Os crânios de almas preclaras
Guardados nas galerias
E os cristos de pedrarias
Cobertos com pedras caras.


Gretadas teclas cansadas,
Crivadas marchetarias,
Dos cravos de mão pregadas
E os cravos das melodias
Que as horas cremam vazias
Com notas crucificadas
Nos crivos das balaustradas
Quebrando o cristal dos dias.


Cantarias denegridas,
Quadros negros nas escadas,
Colunas gregas descridas
Nas grutas sacramentadas,
Catedrais das madrugadas
Carpindo estrelas ungidas
No escrínio escuro das vidas
Que clamam petrificadas.


Contrições das faces magras,
Gangrenas encandecidas,
Adros graves, almas agras,
E as ocres carnes feridas,
Cornijas, campas perdidas,
E as covas cheias de pragas,
Crestados claustros nas fragas,
Rangentes dentes deicidas...

 

sábado, outubro 15

Do inacabado livro nosso, a vida...

Dos Poemas Gregos

Série Quarta


Em Síbaris, no porto, te recordo,
Vendo as naves, minha natal cidade,
De Palas protegida, enquanto os ágapes
            Preparam se na treva.

Quem não sonhou o eterno, nem um bloco
De partido epitáfio o lembrará,
Ainda que engenho habilidoso o faça
            Com arte não sincera.

Assim, desta que no festim se espoja
Radiosa urbe, talvez nem escombros
De ervas vestidos possam ao viajante
            Marcá-la no porvir.

Porém tu, minha terra, que te alçaste
Em pedra e alma até o mistério etéreo,
De ti nada cairá, ainda que honrando
            Tua derrota eterna.


Do inacabado livro nosso, a vida,
Em vão nos perguntamos em que frase
             Truncada, ou em que sílaba
Partida, a Moira cega o vai parar.
Enquanto alheio, entre os seus rolos muitos,
            O vento passa, o mesmo
Que nada nos contou quando passava,
E vira as folhas brancas, incontáveis
            Mortalhas, sobre nós.

sábado, outubro 8

Porém tua... A escuridão prossegue ...

Dos Poemas Gregos

Série Terceira 

Alexei Bueno


Os homens, quando crianças, são eternos,
De Tânatos a face os não marcou
            Ainda, e eles a fitam
                        Como a de um deus distante.

O da Noite dileto filho a eles
Parece, com seus pés tortos e velhos,
            Como um deus sem poderes
                        Por tão longe o seu cimo.

Os outros, diurnos deuses, de sua olímpica
Vida eterna, estes sim, parecem próximos
            Pois deles é o instante
                        Do amor e da conquista.

Porém, depois, são eles que estão longe,
E a criança senil, que não viria,
            Acerca se, e nos mostra
                        Seu paciente poder.




                                  ***             



Pobre Leucipo, contra ti o destino
Se armou de crespo olhar. Também para outros
Com de razões igual ausência, ele
              Abriu a meiga face.

Tu no entanto da mais baixa rameira
De Atenas foste fruto, e a vida toda
Levaste, além do pejo, a acre suspeita
            De ver teu pai num desses

Nobres velhos que pela ágora em grupo
Sorrindo passam com seus finos trajes,
E se nenhum foi teu por glória, todos
             O foram por vergonha.

Depois pediste aos deuses a ventura
Que vias claramente, mas teus dias,
Mais brancos do que o mármore, fugiram te
            Como do porto as naves.

E sem uma hora de triunfo na alma,
E sem uma memória na dos outros,
Certa tarde na acrópole, das nuvens
              Inchadas de tormenta,

Um fulminante raio, mais preciso
Que outro qualquer que Hefestos fabricara,
Em bloco de carvão, por Zeus mandado,
            Te fez perante os homens.

Desde esse dia lembram-te com honra,
Desde esse dia, vítima de um deus
Caprichoso, ao teu túmulo se estendem
             Os olhos dos que vivem.

Desde esse dia olvidam te a ascendência,
E o de teus dias pântano asqueroso.
Assim, qual luz na treva, nesta treva
            Tanto arde um brilho estranho!

Por ser prova aos que crêem de uma ausente
Vontade, e de uma lógica lendária.
E é assim que ao receber tal fogo, um fogo
           Ateaste na esperança

Dos mortais, que divino hoje te tomam,
Pela assassina luz, que ao te ser morte
Foi mais do que ela a eles. Porém tua
            A escuridão prossegue.


sábado, outubro 1

Eu, contrário ao geral dos outros homens,


Dos Poemas Gregos

Série  Segunda



Eu, contrário ao geral dos outros homens,
Muito pouco respeito por vós, deuses,
Tenho, e nem temo que em castigo um raio
             Divida me a cabeça.

Porém incréu não sou, embora o pouco
Que soe a minha lira eu nunca às musas
Tenha devido, mas talvez à ausência
            Das nove, e os deuses muitos.

Porque o meu peito, que ambiciona o eterno,
Não se farta convosco, vãs deidades,
Que o vulgo do seu sonho modelou
            Em era já apagada.

Mas antes no universo incompreensível
Te entendo a força, Zeus, que não existes,
E de Apolo o semblante luminoso
             Sinto vivo em meu peito.

Como escuto Dionisos quando à noite
Dois bêbados ao pé do templo caem,
E de Afrodite fito a imensa graça
            Nas jovens intocadas.

E a Posêidon sei ver sob as tormentas,
E Tânatos, mais forte que os mais todos,
Encaro quando os meus se vão, e eu ouço
            Pulsar me o peito efêmero.

Porém, quando isso ocorre, eu, deuses, toco
Não em vós, mas no barro que moldou
Vossas belas, porém frágeis, estátuas
            Por mãos da mesma terra.

E tu mesma, terrível Moira, que enches
De medo os imortais e os que o não são,
Eu sei como és um sonho, tu que os fatos
            Só fazes quando feitos.

Logo não creio em vós; mas nessa hora
Em que deixais deserto o monte Olimpo
E no não penetrais, deuses caídos,
           Cabisbaixos e humildes.

Então, quando há só o nada e o grande Cosmos,
E o do homem espírito insaciado,
Algo eu vejo, que as palavras não dizem
            E o próprio ser não sabe,

Algo tão alto e estranho que até a vós,
Pobres deuses sem chão, tal força um dia
Vos enfim fazer vivos poderia,
            Tornando vos verdade!


  
                                  ***



Tais como as ondas que do mar perpétuas
Fortes levantam se, e em frente caminham.

Tais como as ondas, que as mesmas não são
Jamais, enquanto lhes durar seu curso.

Tais como as ondas que na areia morrem,
E voltam brancas para a água eterna.

Sem deixar rastro, um som, um ronco, um sulco,
Sob as do agora, como as de antes delas.

sábado, setembro 24


DOS POEMAS GREGOS, 1984 de Alexei Bueno




Série Primeira



                    ***


Dos homens, porque as têm,
As faces vão se embora,
Enquanto, na alvorada,
Os de hora breve pássaros
Por anos sem lembrança
São sempre o mesmo canto.

Pois ser um é ser morto,
E assim é que pagamos
O sermos, como os deuses,
Um só, um que não torna,
Porém não como eles
Às Parcas superiores.

Por isso o instante dói,
Como a mim, ao que enxerga
As folhas que não voltam,
E vê, na hora mais viva,
E não na madrugada,
A ágora deserta.





                              ***



Os deuses, como nós, não sabem nada
            E só serenos vivem
            Porque, infinitos sendo,
A vida é lhes bastante só saber.

Pois se assim também fôssemos, as trevas
            Do oculto murchariam
            Perante a luz doméstica
Do nosso então, que acesa seguiria.

Mortais, porém, entre dois grandes mares
            Sem astros nem farol,
            Frágil batel, boiamos
À espera de que a vaga nos destroce.

E tudo é frio e frágil. E a verdade
            Que neste espaço temos
            Fora dele não segue
Qual nosso archote, aonde possamos dar.

Por isso assim trememos, e se rimos
            Debaixo do ócio efêmero
            O medo em nós prossegue
E ele mesmo, com medo, se une a nós.

E abraçados choramos. E no Olimpo
              Até os divinos temem
              Então, como sentindo
Que a eles mesmos a Parca há de cortar.



                            ***



Tudo, menos tu, Cronos, morrer pode.
Mesmo os deuses à morte estão sujeitos.
Mesmo o Fado, que até a eles subjuga,
               Não se interpõe a ti.

Só tu reinas, e findos ainda um dia
Os deuses, e os mortais, e os mundos todos,
E o olímpico monte em pó tornado,
            Tu, eterno, seguirias.

Pois, mais que os nossos olhos que te vissem,
Num vácuo até de ti, sem quem a olhasse,
Tua gota a cair continuaria,
            Sem gota, ou queda, ou nada.

segunda-feira, agosto 29

Resenha


Lavradio



Alexei Bueno

Lavradio, título que reúne quatro livros, ainda que mantendo uma essencial unidade, talvez represente o momento mais emocionado, no entanto sempre contido, da obra de Reynaldo Valinho Alvarez, um dos maiores poetas brasileiros de sua importante geração, a mesma de outros grandes nomes como Ferreira Gullar, Alberto da Costa e Silva e Florisvaldo Mattos. A poesia brasileira sempre foi, indiscutivelmente, mais rica que o seu alcance de compreensão genérica popular, e aqui usamos este adjetivo com um sentido bem mais restritivo do que o normal. A maior difusão de qualquer realização do espírito no Brasil é sempre de resultados aleatórios, como no caso do grande poeta em questão, dos mais premiados de nossa história literária, mas de presença sempre discreta e pouco ostensiva.
O fato é que Lavradio representa, seguramente, um dos grandes momentos da poesia publicada entre nós neste início de século, mais especificamente no ano passado. O primeiro dos movimentos dessa espécie de sinfonia verbal é o que dá nome ao volume, referente à rua onde o poeta passou a infância, aos pés do desaparecido Morro de Santo Antônio, no Rio de Janeiro. Trata-se de memórias em verso, mais ou menos como as escreveu Drummond em Boitempo, mas de maneira mais concentrada, com a utilização de lembranças infantis do mesmo período, o da Guerra, que produziu alguns dos mais marcantes trechos de uma obra como o Poema sujo, de Ferreira Gullar.
Se “Lavradio” nasce especialmente do fluxo memorial, “Noite sobre dia”, a segunda seção do livro, centra-se na própria essência do poema, não como exercício oco da metalinguagem em exaustiva moda nas últimas décadas, mas quase como vivência salvífica do poeta no cenário dantesco da cidade. Reynaldo Valinho Alvarez é poeta essencialmente urbano, na esteira de Baudelaire e Cesário Verde, ligado a um certo expressionismo social mal identificado na poesia brasileira, que parte de Cruz e Sousa, atinge as grandes alturas de Augusto dos Anjos e chega aos dias de hoje. O domínio técnico do poeta, invariável em sua obra, alcança nesta seção notável eufonia e capacidade de projeção emocional.
“Janeiros como rios”, a terceira seção do livro, com a qual o autor conquistou o prêmio Cruz e Sousa em 1998, compõe-se de oitenta sonetos, malha cerrada que descreve com perfeição poucas vezes conseguida a vivência claustrofóbica do homem moderno, mais do que isso, do homem esquizoidemente dividido pela conflagração, como é aquele que vive, mal se apercebendo disso, na nossa trágica metrópole cotidiana.
Fecho do livro e do quarteto de seções, “Desembarque”, quase inteiramente vazado em decassílabos brancos, ainda que com uma coda em cantabile mais lírico, retoma todos os temas anteriores, e os sintetiza numa visão geral, prenúncio da morte, panorama em perspectiva que nos lembra a descrição quase vertiginosa que Proust dá da vida humana no tempo na última página de seu insuperável roman fleuve. No fundo, Lavradio, em sua aparente sobriedade, encerra em seus versos uma vivência trágica, uma experiência aguda e pungente do real, perfeitamente realizada enquanto poesia, como raramente a encontramos entre nós.


terça-feira, agosto 23

conTextos Poéticos

A juventude dos deuses




        I

                                                    

Tudo o que se passou
É mentira
Porque o que é o ser
Não pode nunca mais deixar de sê-lo.
Ontem nunca existiu, não te levantaste nem dormiste.
A hora que passou não passou, onde está ela agora?
Tudo o que foi, e tudo foi, é mentira, e unicamente mentira.
Algo está aqui, mas este algo não é o teu passado
Nem o do mundo, nem o do Universo.
Nunca nada existiu.
Tudo acabou de ser criado, agora.
Não perguntes, deploravelmente, como pôde Deus criar o mal,
Pois jamais houve mal.
Nunca um homem nasceu.
Nunca morreu homem algum.
Nunca ninguém amou ninguém.
Nunca houve qualquer guerra sobre a terra. 
Tua mãe não te pariu, tua avó não pariu a tua mãe.
César não atravessou o Rubicão, a América não foi descoberta.
Nada disso jamais aconteceu, o único acontecimento
É estares aqui, neste instante, espectador desta mentira enorme
E não existires também.
Amanhã serás tão mentira quanto Napoleão ou um amor perdido,
A História nunca ocorreu, jamais um homem foi assassinado,
Savonarola não marchou para a fogueira, não ergueram a muralha da China,
Ela está lá, a muralha, agora, mas foi erguida neste instante,
Nunca existiu também, embora surja diante dos teus olhos.
Jamais alguém deu uma esmola, jamais alguém agonizou no mundo,
O tempo não permite a verdade de nada, exceto de um olho
Que vê tudo isso, e que não é o teu, pois jamais nasceste.
Sonho e vácuo. Rumor. Mentira. Um filme que passa
E a cada fotograma se destrói, eternamente.
Tua sombra nunca te seguiu. Teu filho, não o geraste.
Nada te pode ferir. Tua dor é mentira, escárnio tua honra.
O Tempo é o parricida do ser. O Tempo é que te liberta
De tudo. No Tempo és nada. No Tempo
Não és. Nada é. Só um olho
Nem teu nem meu fita essa fanfarra inútil,
Essa torre de nada
Chamada Desespero.
Só esse olho fita
E existe, como na noite
A um velho filme que se esvai
Branco e negro nas trevas.
Tua mulher não te pode trair. Tua casa não pode pegar fogo.
Nada existiu jamais.
Nem um beijo.
Nem um crime.
Tu apenas existes neste instante
Invadeável
Onde és o olho para o olho que não passa,
Onde és o ator da peça prolixa que vai terminar,
Onde és a vagabunda para o ato de doze minutos,
O substituível, o dispensável
Espectador da lenda
Que nunca se passou.
Nada. Apenas tu aqui, sozinho,
Pavorosamente sozinho, miseravelmente sozinho,
Envolvido com trapos de tecido fino na borrasca enorme,
Na tormenta imóvel, no furacão sem vento, na geleira sem frio
Envolto em trapos.
A casa em que nasceste esses trapos,
O sorriso de teu pai esses trapos,
A batalha de Salamina, o canto de Akhenaton esses trapos,
Os seios daquela que forjaste, a queda de Constantinopla esses trapos,
Cristo subindo o Calvário, os soluços de tua filha,
A caminhada nas falésias esses trapos, Atenas esses trapos,
Esses trapos teu rosto aos seis anos, as montanhas, a noite,
As ondas que arrebentam, as constelações esses trapos,
Tudo esses trapos contra a tormenta de estares aqui
Sozinho,
Tu,
O olho do Olho que não te vê e não és,
Agora, no agora de onde jamais poderás fugir.
Nada nunca aconteceu,
Nada,
Exceto esse incansável olho fitando a lenda que se esgarça
Cada vez mais longe,
Cada vez mais lenda,
Como um arranhado filme roufenho e anacrônico
Onde todos os atores morreram
Farolando numa sala vazia
E negra e branca
Na noite. 

O LOUCO NA IGREJA



      (Fuga sacra)

Flores brancas, flores frias,
Cravos, lírios... Flores claras
Das cruzes das sacristias
Que encobrem com graças raras
Os crânios de almas preclaras
Guardados nas galerias
E os cristos de pedrarias
Cobertos com pedras caras.

Gretadas teclas cansadas,
Crivadas marchetarias,
Dos cravos de mãos pregadas
E os cravos das melodias
Que as horas cremam vazias
Com notas crucificadas
Nos crivos das balaustradas
Quebrando o cristal dos dias.

Cantarias denegridas,
Quadros negros nas escadas,
Colunas gregas descridas
Nas grutas sacramentadas,
Catedrais das madrugadas
Carpindo estrelas ungidas
No escrínio escuro das vidas
Que clamam petrificadas.

Contrições das faces magras,
Gangrenas incandescidas,
Adros graves, almas agras,
E as ocres carnes feridas,
Cornijas, campas perdidas,
E as covas cheias de pragas,
Crestados claustros nas fragas,
Rangentes dentes deicidas...