CEMITÉRIO DAS POLACAS(INHAÚMA)
Nos beliches sobre o oceano,Nas camas de Lapa ou MangueFizeram-se, corpo e sangue,Algo horizontal e plano.
Sob o lustre, ao som do piano,Quanto gesto ousado ou langue,Que mudo medo da gangueQue as trouxe, que asco inumano.
Mas ei-las, ainda deitadasNos seus leitos de cimento,Seus barcos sem amuradas.
Doadoras do esquecimento,Ei-las na paz olvidadasDe todos, menos do vento.
BECO DOS BARBEIROS
Nossos pés e as folhas secasHá tempos, tempos, te roçamAs pedras, quase as remoçam,Polidas como carecas.
As folhas, como os calçadosPerdidos para o outro mundoDão-te um concerto profundoDe estalos, riscos, chiados.
Folhas de oitis, de mangueiras,Botas, tamancos, coturnos,Pés nus, ébrios pés noturnos,Jornais lidos, amendoeiras,
Chinelos, heras, jaqueiras,Gramíneas, notas fiscais,Bilhetes de nunca mais,Bengalas de áureas ponteiras,
Sapatos, rosas, cobranças,Folhas dos homens, dos troncos,Todos hirtos, ambos broncos,Sapatilhas, pés de crianças,
Que ruído em rio, que rioDe eras sem fim, litaniaDo abismo, na pista esguiaDo teu traçado sombrio
Que, à frente e atrás, é uma fozDando ao nada, é o dom das ruas,Sob uns cem mil sóis, mil luas,Ruidoso, fluente, feroz.
APELO
Quando, cidade, eu deixar-te,Em que mundos pulsaráEsta falta que já estáPor aqui, por tanta parte?
Esta saudade sem termoPara onde irá? Que desgraçaO exílio do que se passaNo teu corpo infante e enfermo.
Nunca mais, manhã bem cedo,Caminhar na Rua LargaEntre os caminhões de cargaE o abrir portas, que degredo.
Nunca mais o Bar do Jóia,O Gaúcho, o Paladino.O que há depois do destino?Sem mãos, que mão nos apóia?
Nunca mais os sebos relesDa Feijó, da Tiradentes,Nem as luzes descendentesSobre as mais diversas peles.
Nunca mais o Hotel Planalto,O Triângulo das Sardinhas,Velhas pedintes mesquinhas,A corrida após o assalto.
O ouro vítreo das tulipas,
Os sinos nas rijas torres,As querelas entre os porres,O óleo sujo a fritar tripas.
Nem o Campo de SantanaCom estátuas, ébrios, putos,Nem pombos nos cocurutosDe uns heróis que a brisa abana.
Nem a Rua do Ouvidor,Rosário, Gonçalves Dias,Quilométricas de dias,De longas filas de dor.
Nem o Largo da CariocaPleno de povo e de lixo,Papéis de jogo de bichoQue um vento cego desloca.
Nem Lapa, nem Cruz Vermelha,Gamboa, e os burros-sem-raboRinchando, ou pipas num caboDe luz, nem matos na telha.
Nem descer a Rio Branco,Cinelândia, Serrador...É possível tal horror,Tal golpe à esquerda, no flanco?
Resta-me ser um fantasma,Acolhe-me, pois, qual sombra,Cidade que amo e me assombra,Num tempo que o tempo plasma.
Deixa-me, espectro, cruzar-te,Eterno, nesses lugaresQue são e foram meu lares,Eu, teu cerne e tua parte.
CEMITÉRIO DOS PRETOS NOVOS(GAMBOA)
O mar ficara atrás, defronte o nada.Sem seu mundo, nem o outro, ei-los sepultos,Ossos, cinzas, libertos dos insultosSob o asfalto, os assoalhos, a calçada.
Invisíveis, na alheia madrugada,Levantam-se, reúnem-se, e seus vultosFitam a ruela livre de tumultosE enxergam nela a cena insuspeitada.
Hienas, zebras e leões varam as casas,Girafas e baobás nascem das telhas,Os grous nos postes bicam suas asas,
E eles, ao fogo, com cauris e contas,Dançam, estátuas brônzeas ou vermelhas,Além da vida de ódios e de afrontas.
PASSEIO PÚBLICO
(DEVANEIO)
Como a vida cansa. Fosse eu já um bustoNum jardim bem sujo, entre espinheiros rombos.Meu crânio lustroso sob um sol adustoFicaria branco com as fezes dos pombos.
Que em meu pedestal os bêbados, aos tombos,Viessem se escorar e vomitar sem susto.Bandas no coreto, entre marciais ribombos,Nunca acordariam meu perfil vetusto.
Máscara sem alma, patinando ao vento,Que nenhum passante sequer fitaria,Tendo embaixo um nome que ninguém leria.
E se alguém o lesse, no fragor violentoDa hora do retorno, nem o guardaria,Servo de um senhor que não se aplaca: o dia.




