Poeta , Editor, ex-Diretor do INEPAC, Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro, e membro do Conselho Estadual de Tombamento.

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sábado, outubro 1

Eu, contrário ao geral dos outros homens,


Dos Poemas Gregos

Série  Segunda



Eu, contrário ao geral dos outros homens,
Muito pouco respeito por vós, deuses,
Tenho, e nem temo que em castigo um raio
             Divida me a cabeça.

Porém incréu não sou, embora o pouco
Que soe a minha lira eu nunca às musas
Tenha devido, mas talvez à ausência
            Das nove, e os deuses muitos.

Porque o meu peito, que ambiciona o eterno,
Não se farta convosco, vãs deidades,
Que o vulgo do seu sonho modelou
            Em era já apagada.

Mas antes no universo incompreensível
Te entendo a força, Zeus, que não existes,
E de Apolo o semblante luminoso
             Sinto vivo em meu peito.

Como escuto Dionisos quando à noite
Dois bêbados ao pé do templo caem,
E de Afrodite fito a imensa graça
            Nas jovens intocadas.

E a Posêidon sei ver sob as tormentas,
E Tânatos, mais forte que os mais todos,
Encaro quando os meus se vão, e eu ouço
            Pulsar me o peito efêmero.

Porém, quando isso ocorre, eu, deuses, toco
Não em vós, mas no barro que moldou
Vossas belas, porém frágeis, estátuas
            Por mãos da mesma terra.

E tu mesma, terrível Moira, que enches
De medo os imortais e os que o não são,
Eu sei como és um sonho, tu que os fatos
            Só fazes quando feitos.

Logo não creio em vós; mas nessa hora
Em que deixais deserto o monte Olimpo
E no não penetrais, deuses caídos,
           Cabisbaixos e humildes.

Então, quando há só o nada e o grande Cosmos,
E o do homem espírito insaciado,
Algo eu vejo, que as palavras não dizem
            E o próprio ser não sabe,

Algo tão alto e estranho que até a vós,
Pobres deuses sem chão, tal força um dia
Vos enfim fazer vivos poderia,
            Tornando vos verdade!


  
                                  ***



Tais como as ondas que do mar perpétuas
Fortes levantam se, e em frente caminham.

Tais como as ondas, que as mesmas não são
Jamais, enquanto lhes durar seu curso.

Tais como as ondas que na areia morrem,
E voltam brancas para a água eterna.

Sem deixar rastro, um som, um ronco, um sulco,
Sob as do agora, como as de antes delas.